
O piano de Benito di Paula silenciou na noite deste domingo, em São Paulo. Ele tinha 84 anos, enfrentava um câncer havia cerca de um ano e estava internado no Hospital 9 de Julho. Faltavam pouco mais de cinco semanas para os 85. Recebi a notícia com aquela sensação de quem chega atrasado ao baile e encontra as luzes acesas, as cadeiras viradas em cima das mesas, o garçom contando as contas pagas. E mesmo assim, lá no fundo do salão, alguém ainda dedilha um acorde que não sai da cabeça.
Uday Vellozo nasceu em Nova Friburgo, em 28 de novembro de 1941. Filho de José, ferroviário da Leopoldina, e de dona Maria, que criou treze filhos. Gente simples. O pai tinha sangue cigano, tocava cavaquinho, bandolim, acordeão e violão de sete cordas, comandava um regional chamado Arame Farpado e um bloco de carnaval que já anunciava a filosofia da casa: Gente Boa Não Se Mistura com a Gente. Benito gostava de contar que, no dia em que nasceu, havia um regional tocando na sala. Eu acredito. Tem gente que chega ao mundo com trilha sonora.
Piano, em casa, nunca houve. Ele dizia que só foi ver um de perto quando caiu na noite. Guarde essa informação, porque ela vai pesar lá na frente.
Aos 15, 16 anos, cantava no Hotel Avenida, no centro de Friburgo, levado por Alfredo Motta, que inventou com ele o nome Benito e depois pendurou o “di Paula” para dar ao rapaz um verniz italiano. Aos 17, desceu a serra para servir o Exército no Rio. Foi morar no Morro da Formiga, na Tijuca, e virou crooner das boates de Copacabana, a Balalaika sobretudo. Tirou certidão de emancipado para poder trabalhar e mandar dinheiro para casa. Foram dezesseis anos de madrugada antes do sucesso.
Eram as madrugadas que Antônio Maria escreveu tão bem: a Copacabana dos uísques aguados, dos amores de última hora, do crooner que canta bolero, rock, samba-canção e o que mais o freguês pedir escrito no guardanapo. Foi ali, entre um pedido e outro, que o menino de Friburgo aprendeu a conversar com as teclas. Sem conservatório, sem professor, sem partitura. De ouvido e de alma.
Um dia, uns amigos acenaram com o dobro do cachê em São Paulo. Ele foi. Santos primeiro, depois a capital, a Catedral do Samba no Bixiga. Lá ficou, casou, criou os filhos e virou símbolo do samba paulista. Mas aqui eu peço licença para reivindicar uma coisa: a ginga era carioca. O balanço do Morro da Formiga, a malícia de esquina, o jeito de andar de quem sabe que está sendo olhado. Isso ele levou na mala e nunca desfez.
O primeiro LP, de 1971, foi recolhido das lojas porque abria com “Apesar de Você”, a canção de Chico Buarque que a ditadura não engolia. Ironia fina: a faixa que salvou o disco era dele, “Violão Não Se Empresta a Ninguém”. E tem uma história que eu adoro. Chico ouviu a música uma única vez, no programa do Chacrinha, e saiu de casa assobiando a melodia a caminho do estúdio onde gravava a trilha de “Quando o Carnaval Chegar”. No trajeto, a cabeça dele começou a inventar versos novos, em estilo buarquiano, por cima da melodia do Benito. Gravou ali mesmo, com os músicos que estavam no estúdio. A gravação nunca saiu, e Chico nunca chegou a mostrá-la ao autor. Pense nisso por um instante: o maior letrista do país, grudado numa melodia de Benito di Paula.
Em 1973 veio “Um Novo Samba”. Na capa, o cabelão, o bigode, o cavanhaque, as correntes, os anéis, as pulseiras. Enfeitado pra vida, como ele mesmo dizia. “Retalhos de Cetim” virou a segunda música mais tocada do ano no país. Depois vieram “Charlie Brown”, que levou cinco anos para ficar pronta e nasceu numa pensão de italianos em Santos, onde os hóspedes liam os quadrinhos e ele quis saber quem era aquele menino. Vieram “Mulher Brasileira”, “Bandeira do Samba”, “Vai Ficar na Saudade”, “Não Precisa Me Perdoar”, “Maria Baiana Maria”, “Tudo Está no Seu Lugar”, que ele fez para a mãe.
Benito tinha um mestre e um rei. O mestre era Ataulfo Alves, de quem herdou até a gravata-borboleta, e para quem escreveu “Como Dizia o Mestre” e “Do Jeito que a Vida Quer”. O rei era Luiz Gonzaga, que conheceu num banheiro, numa caravana de artistas em Brasília. Benito fez “Sanfona Branca” para ele. Gonzagão respondeu com “Chapéu de Couro e Gratidão” e passou a chamá-lo de enteado. E teve Adoniran Barbosa, que um dia cruzou com ele na saída do estúdio do “Brasil Som 75” e lhe entregou um papel com meia música escrita, pedindo que terminasse. Benito terminou. A parceria ganhou o nome de “Não Precisa Muita Coisa” e foi parar na voz do grupo Os Três Moraes. Um encontro de calçada entre o Bixiga de Adoniran e o piano carioca de Benito.
Em 1976, ganhou o Troféu Imprensa de melhor cantor disputando com Roberto Carlos e Chico Buarque. Comandou o “Brasil Som 75” na TV Tupi. Vendeu algo perto de 50 milhões de discos, gravou em espanhol, francês, italiano, alemão e até finlandês, e está entre os cinco maiores vendedores da história do disco no Brasil.
E apesar de tudo isso, ou talvez por causa disso, a crítica torceu o nariz. Inventaram para a música dele o rótulo de “samba-joia”, que Benito detestou até o fim. Chamaram de brega, de cafona, de fora de moda. Espalharam que estava com leucemia, que tinha morrido. Ele respondeu em 1977 com “Osso Duro de Roer” e passou a se referir aos críticos como os donos do samba. Não pedia para ser chamado de pianista nem de sambista. Preferia “pianeiro” e “sambeiro”.
E é aqui que eu quero deixar registrada uma opinião que carrego há muitos anos.
Para mim, Benito di Paula é um dos compositores mais subvalorizados de toda a história pesquisada da música popular brasileira. Não digo isso por carinho de fã, embora o carinho exista. Digo porque é impressionante o nível melódico e, mais ainda, harmônico das canções que ele deixou. Uma pesquisa apresentada num colóquio de pós-graduação da UNIRIO já observava que o nome dele simplesmente não aparece nas grandes coleções e livros sobre a história do samba e da MPB, mesmo tendo vendido mais do que praticamente todos os sambistas da sua geração. É um silêncio que diz mais sobre quem escreve a história do que sobre quem fez a música.
A palavra que ele escolheu para si, pianeiro, não é à toa. É a mesma que se usava para os pianistas das casas de música do Rio no começo do século passado, a turma de Ernesto Nazareth, que botava o choro e o maxixe nas teclas sem pedir licença aos salões. Benito é herdeiro direto dessa linhagem. O samba dele tem a batucada, tem o surdo, tem o pandeiro. Mas por cima disso desliza um piano cheio de sétimas, nonas, acordes que parecem ter passado uma temporada num clube de jazz em Nova York e voltado para casa de trem, pela Leopoldina, com o paletó amassado e um sorriso de canto de boca. Isso dá a uma música eminentemente brasileira uma roupagem adorável, sofisticada sem ser pedante, elegante sem perder o suingue.
Quer uma prova? “Retalhos de Cetim” foi gravada pela orquestra de Paul Mauriat e pelo guitarrista americano Charlie Byrd, um dos homens que levaram a bossa nova para o jazz dos Estados Unidos. Ninguém do calibre de Charlie Byrd perde tempo com canção rasa. Ouça “Ela”, ouça “Madrugada”, ouça “Sonho em Preto e Branco”, ouça o disco instrumental de 1986. Ouça “Charlie Brown” prestando atenção só na mão esquerda dele. Tem ali um compositor que pensava a harmonia como quem desenha uma calçada de Copacabana: ondas que vão e voltam e nunca cansam a vista.
E tudo isso sem perder a malandragem. Porque Benito era sofisticado, mas era do povo. “Assobiar e Chupar Cana” é uma aula de ironia, uma alfinetada nos atores e jogadores de futebol que resolviam virar cantores. “Charlie Brown” é um samba que pega o menino do Snoopy pela mão e leva para conhecer a galera do Flamengo. “Violão Não Se Empresta a Ninguém” tem a esperteza de quem já levou muita rasteira na vida e aprendeu a sambar em cima dela. É a ginga carioca, a malícia de quem conhece o caminho do morro e o caminho da boate, só que vestida de terno, anel e piano de cauda. Ele pegou a essência do samba e tornou mais rebuscada sem tirar dela uma gota de molho.
Os anos 1990 foram ingratos. As gravadoras só tinham olhos para outros ritmos e ele passou treze anos sem entrar num estúdio. Nunca parou de cantar. Dizia que morava no avião, que ia para o baile que fosse, chique ou não. Enquanto isso, a obra seguia viva na voz dos outros: Paulinho Moska regravou “Retalhos de Cetim”, Alcione também, o Revelação fez de “Do Jeito que a Vida Quer” um dos sambas mais tocados do país em 2003. Em 2009, voltou com um DVD gravado no Vivo Rio, no Rio de Janeiro, cidade que nunca deixou de ser dele.
A vida também lhe cobrou dores que nenhum pai deveria conhecer. Perdeu o filho André em 2019. E foi com o outro filho, Rodrigo Vellozo, pianista como ele, que transformou o luto em canção e reencontrou o palco. Juntos fizeram “O Infalível Zen”, em 2021, ano em que nasceu Aurora, a primeira neta. Pai e filho passaram a dividir os pianos em shows por São Paulo, um respondendo ao outro, como se o tempo tivesse decidido conversar consigo mesmo.
Em março de 2025, recebeu em vida a homenagem que a gente costuma reservar para depois: foi enredo da Águia de Ouro no Carnaval de São Paulo, com Xande de Pilares escrevendo o samba. Benito e Rodrigo desfilaram juntos no carro “Meu Amigo Charlie Brown”. Ele disse que aquele foi um dos momentos mais especiais da vida dele. Em julho deste ano, Rodrigo ainda levou ao palco o espetáculo “Benito 85”, celebrando os 85 anos de vida e os 70 de carreira que o calendário não deixou completar.
Numa entrevista de 2009, Benito contou que, moço, pedia a Deus para ser músico de boate. Só isso. Um piano num canto escuro, a fumaça, os casais dançando. E Deus, segundo ele, achou o pedido modesto demais e resolveu fazer dele um artista. Disse também que compor era coisa sagrada, que só compunha “quando Deus permite”.
Pois Deus permitiu muito.
Hoje eu fico imaginando uma boate antiga lá em cima, dessas de luz baixa e toalha vermelha. Ataulfo de gravata-borboleta numa mesa, Gonzagão encostado no balcão, Adoniran rabiscando meia música num guardanapo. Alguém levanta o dedo e pede um samba. E aquele cabeludo de Friburgo, cheio de anéis, senta ao piano, sorri de canto, e puxa os primeiros acordes de “Retalhos de Cetim”.
Vai ficar na saudade, Benito. Mas é uma saudade boa, de quem teve a sorte de ouvir. Obrigado pelo samba de terno, pelo piano de bolso furado e coração cheio, pela ginga que você ensinou às teclas. Aqui embaixo, tudo está no seu lugar. Graças a você.