O polêmico laance que acabou evitando que a Croácia empatasse o jogo e levasse a disputa da classificação para a prorrogação
O polêmico laance que acabou evitando que a Croácia empatasse o jogo e levasse a disputa da classificação para a prorrogação

Todo mundo já viu o lance. A Croácia empatou com Portugal nos acréscimos, o gol foi anulado por um toque que nenhum ser humano enxergou – nem o juiz, nem o bandeira, nem o VAR, nem as câmeras, nem os próprios jogadores – e só um chip dentro da bola soube que houve contato. Caiu da Copa por causa de uma vibração invisível. O próprio Matanović admitiu depois que talvez tivesse sentido alguma coisa, sem certeza. A bola soube do toque antes do corpo do jogador saber.

Não vou me demorar no episódio, que já é sabido de cor. O que me interessa é o que ele deixa no ar.

Michel Foucault, em “Vigiar e Punir”, cravou uma tese incômoda: a tecnologia nunca é neutra. Ela finge ser, mas o que faz de verdade é vigiar. E, de tanto vigiar, fabrica o que ele chamava de corpos dóceis: gente útil, disciplinada, que produz e não pergunta. O panóptico de Foucault era uma torre de onde se enxergava tudo. Ontem, a torre virou um chip do tamanho de uma moeda, costurado por dentro da bola.

Não é a justiça que me incomoda. Buscar a decisão certa é legítimo, ninguém quer ver um time roubado, e a Croácia saiu de campo sem exacerbada revolta, aceitando o veredito. Fair play bonito.


Incomoda-me outra coisa. “Toque” para um ser humano e “toque” para um sensor de quinhentos hertz são coisas diferentes. Para nós, tocar a bola é um gesto: a gente vê, sente, discute no dia seguinte. Para o chip, é um abalo sísmico microscópico, invisível ao olho, impossível de contestar. Quando a definição da máquina passa a valer mais que a nossa, é a nossa que some. Passamos, de certa forma, a inexistie.

Galeano dizia que a história do futebol é uma triste viagem do prazer ao dever. O tecnocrata, escrevia ele, prefere a eficiência à beleza. O chip é a vitória final desse tecnocrata: agora até o acaso é medido e auferido. 

O filósofo Byung-Chul Han anda dizendo algo parecido sobre o nosso tempo. Uma sociedade que exige transparência total acaba matando a confiança, porque a confiança só existe onde não se sabe tudo. O futebol vivia disso. Do erro do juiz, do gol duvidoso, da mão que ninguém viu direito e virou assunto de bar por uma semana inteira. Max Weber daria um nome ao que está acontecendo: desencantamento. A razão avança, e o mistério faz as malas.


Não quero o erro de volta por saudosismo. Quero, sim, perguntar se vale entregar a esse nível de filigrana – tão fundo, tão minucioso – as decisões do jogo; se decidir também não faz parte da graça de ser humano dentro do futebol; se o palpite errado, a bronca do dia seguinte, a dúvida que não fecha nunca não são tão do jogo quanto o próprio gol.

Aí se abre uma outra porta, que deixo só encostada para a próxima conversa: será que a gente não anda tratando o futebol demais como ciência exata, e de menos como ciência humana?

Por ora, fico com a imagem que a própria Fifa botou na tela para explicar o lance. Os dados do chip apareceram como um traçado que sobe e desce em picos. Igualzinho a um eletrocardiograma.

O futebol agora tem batimentos. Só espero que ainda tenha coração.