Galarza, o meiocampista que já defendeu o Vasco, foi um símbolo da luta sul-americana em campo
Galarza, o meiocampista que já defendeu o Vasco, foi um símbolo da luta sul-americana em campo

Há uma máxima, na América do Sul, que ninguém escreveu mas todos carregam: o de que somos eternos candidatos a perder. Nelson Rodrigues batizou o vício de complexo de vira-lata, e o nome pegou como pega apelido — ficou, mesmo quando a gente queria outra coisa.

Mas hoje, em Boston, um cachorro mordeu.

O Paraguai não tinha nada — nem favoritismo nem talento estonteante nem um passe de mágica nas pernas. Tinha apenas a obstinação de quem aprendeu, há séculos, a sobreviver entre impérios maiores. Jogou feio, mas jogou deslumbrantemente. E ganhou da Alemanha tetracampeã, guardiã de quatro estrelas que o futebol europeu gosta de exibir como brasão de superioridade.


Não foi bonito. Foi histórico. E a História, comprovam os arquivos do nosso continente, raras vezes é elegante com os de baixo — mas às vezes, raras vezes, é generosa.

A Europa engordou. Não é xingamento, é contabilidade: os clubes do velho continente compraram o mundo, recrutaram a África, a América Latina, a Ásia, e transformaram suas ligas em torres de Babel bem pagas. O que resta para as seleções sul-americanas, então, quando o adversário tem em campo jogadores formados em academias que custam o PIB de uma província?

A resposta, nesta Copa, está sendo escrita ao contrário do roteiro. O Equador bateu a Alemanha dias atrás. A Colômbia não venceu Portugal no placar, mas submeteu, sufocou, humilhou com bola, o que muitas vezes é pior que humilhar com gol. O Brasil passou por cima da Escócia. A Argentina engoliu a Áustria. E agora o Paraguai, o país pequeno, maltratado um dia pelos seus próprios irmãos de geografia (e um dia, Brasil, Argentina e Uruguai terão de pedir desculpas pelo genocídio que promoveram) e a História tantas vezes esqueceu, despachou a Alemanha de Beckenbauer, de Müller, de quatro estrelas costuradas no peito.

Só a Espanha, dos europeus, levou a melhor sobre um sul-americano — e foi sofrendo, contra o Uruguai, no fio da navalha do último jogo de grupo.


Eduardo Galeano dizia que o futebol é a única religião sem ateus. Dizia também — e isso interessa mais hoje — que a história da América Latina é a história de uma espoliação permanente, das minas de Potosí às safras de soja, do extrativismo colonial ao extrativismo de craques. A Europa não comprou só nosso futebol. Levou nosso ouro, nossa prata, nosso açúcar, nosso petróleo, e por cinco séculos comprou também a narrativa: a de que o centro pensa e a periferia executa.

Mas o jogo, esse mesmo jogo que a Inglaterra exportou como verniz civilizatório para nos “educar”, virou a arma que sobrou na mão de quem perdeu quase tudo o mais. Não há like trocando as ações da Volkswagen, não há acordo de livre comércio que se sustente diante de um pênalti bem cobrado em campo neutro. O futebol é, talvez, a última colônia onde o colonizado ainda pode revidar — e revidar com a régua que importa: vencer.

Tem um México na América Latina jogando sua Copa em casa. Tem samba, tem salsa, tem merengue circulando entre os gramados deste Mundial que a geografia decidiu sediar quase no nosso quintal. Não é mundial sul-americano — mas é, ao menos, um mundial que se ouve em espanhol e português antes de se ouvir em alemão.

E se a colonização nos ensinou a duvidar de nós mesmos, talvez seja função da crônica — pequena, modesta, sem pretensão de tratado — registrar o contrário: que a síndrome de vira-lata não é destino, é apenas hábito. Um mal hábito. E hábito se quebra.

O cavalo de São Jorge, dizem as crônicas antigas, nunca quis carregar santo nenhum nas costas, em meio a foguete e tambor, só para sustentar a pompa de um império que não lhe perguntou nada. Os paraguaios de hoje, eu suspeito, sabem exatamente como ele se sentia.

A diferença é que, dessa vez, o bicho não derrubou o santo no chão por acidente.

Derrubou de propósito.