Existe um samba antigo que se chama “Fala Mangueira”. Não é uma ordem. É um pedido. É a cidade inteira  pedindo à escola que diga alguma coisa, porque quando a Mangueira fala, o Rio de Janeiro para pra escutar.

Pois a Mangueira falou. Falou na madrugada deste domingo, 6 de setembro, quando o relógio já tinha desistido de marcar hora e a quadra ainda não tinha desistido de cantar. Falou pela inspiração de Lequinho, Júnior Fionda, Gabriel Machado, Orlando Ambrósio, Guilherme Sá e Paulinho Bandolim, a parceria que vai embalar o carnaval de 2027. Falou pra Oyá. Falou pra Iansã. E quem conhece a senhora dos ventos sabe que ela não aceita sussurro.

Eu não sei explicar direito o que é o Buraco Quente às 4 da manhã de um dia de escolha de samba. Sei que o ar fica diferente. Sei que a Visconde de Niterói vira um rio de gente que sobe e desce sem destino certo, que o cheiro é de cerveja quente, fritura e suor de gente; e que em algum lugar entre o palco e a rua há sempre uma senhora que sabe a letra inteira antes de todo mundo, porque os cabeças-brancas de Mangueira aprendem samba por osmose. Sei que o Maracanã, lá embaixo, fica pequeno. Sei que o morro olha pra cidade como quem olha pra um filho que cresceu demais e ainda assim vem pedir a bênção.

E sei que, nesta madrugada, a Mangueira fez o que faz quando resolve fazer: virou força da natureza.


O enredo é “Oyá por nós!”, e há uma justiça poética em tudo isso. Iansã é a que vem antes da chuva. É a ventania que derruba tudo, o raio que rasga o céu da cidade, a tempestade que ninguém segura. Não pede licença. Passa. E a Mangueira, quando se une em torno de uma ideia, é exatamente isso. A escola não vence: a escola passa por cima. Já vi isso acontecer com as minhas próprias vistas, e quem viu não esquece. Existe um momento, na Sapucaí, em que verde e rosa deixam de ser cores e viram temperatura. Deixam de ser fantasia e viram clima. A arquibancada percebe antes de entender. A Marquês descobre depois de ver e sentir.

Este ano, esse momento começou cedo. Começou pelo enredo. Sidnei França trouxe Oyá e, a partir dela, tudo foi se arrumando como se a própria orixá tivesse sentado na mesa da diretoria: o samba veio, a comunidade abraçou, a quadra decorou a letra antes mesmo de os compositores subirem no palco. Quem acompanhou as eliminatórias sabe. Tinga ainda ajeitava o microfone e a torcida já cantava o refrão. Isso não se ensaia. Isso é o que os antigos chamavam de “o samba pegou”, expressão que a ciência nunca conseguiu explicar e que a Mangueira conhece muito bem.

Mas nada disso é novidade. E essa é a parte que me comove.

A Estação Primeira tem 98 anos. Nasceu em 1928, no tempo em que o Rio ainda era capital de uma República Velha que já cheirava mal. Viu 1930, viu Vargas subir e descer e subir de novo, viu a redemocratização de 45, viu JK inventar Brasília e levar embora a coroa política da cidade. Isso doeu no Rio de um jeito que a gente ainda não terminou de contar. A cidade perdeu o título de capital e ganhou um nome provisório de estado, Guanabara, e a Mangueira, como quem diz “eu continuo aqui”, foi a primeira campeã dessa Guanabara recém-nascida. Depois veio o cinza dos anos de chumbo, e a escola continuou desfilando. Veio a redemocratização, veio a fusão, veio a cidade virar cidade de novo, e a escola continuou. Foi a campeã pioneira do Sambódromo. A campeã do Rio Olímpico. A história do Brasil passou por dentro do morro, sempre compassada pelo ritmo do surdo único.

Há um dado que explica a Mangueira melhor que qualquer discurso: desde que existe concurso oficial de escolas de samba no Rio de Janeiro, ela é a única que foi campeã em todas as décadas. Todas. Dos anos 30 aos anos 2010. Isso não é sorte. Sorte não dura noventa décadas. Isso é uma forma de teimosia que só o povo carioca conhece, essa capacidade de atravessar governo, ditadura, crise, enchente, pobreza, e ainda assim descer o morro no carnaval vestido de rei.

E há a música. Meu Deus, a música!


Falar de Mangueira é falar do maior polo produtor de canção popular desta cidade, e eu escrevo “popular” no sentido mais exato da palavra: feita pelo povo, cantada pelo povo, guardada pelo povo. Cartola, que era o próprio Rio de Janeiro.  Nelson Cavaquinho, que tirava beleza da tristeza como quem tira água de pedra. Carlos Cachaça. Nelson Sargento, que ensinou ao samba que ele agoniza mas não morre. Hélio Turco, Jurandir, Alvinho. Chico Porrão, Zagaia, Pelado, Cícero, Comprido. Padeirinho, que escreveu a favela como ninguém. Geraldo Pereira. Jamelão, que pouco compôs mas fez cada samba parecer dele. Dona Zica e Dona Neuma, que não precisaram assinar nada pra serem autoras de tudo. E teve mais hente que escreu sem caneta. Delegado dançou o que os outros compunham. Era um homem de sapato lustrado a quem o chão pedia licença, e não havia nele um só gesto que não fosse melodia, uma só volta que não fosse verso. Diante dele, Neide. Depois dele, Mocinha. Duas mulheres carregando um pano verde e rosa como quem carrega o nome de todo mundo que já morreu no morro sem sair no jornal. A bandeira, nas mãos delas, não era pano: era um pedaço de céu que a Mangueira cortou pra si e não devolveu mais. Neide girava e a Sapucaí prendia a respiração. Mocinha girava e a Sapucaí devolvia a respiração em grito. Quem viu viu a coisa mais parecida com reza que já se fez de pé, em plena avenida, sob luz de refletor ou do sol. É mais gente que um time de futebol . É uma seleção que nunca perdeu jogo, porque jogava em casa desde sempre.

Toda essa gente estava na quadra nesta madrugada. Não do jeito que se vê, mas do jeito que se sente. Estava nas mãos da bateria, estava no gogó da comunidade, estava no jeito como a escola escolhe: não por um placar, mas por uma espécie de acordo silencioso entre os vivos e os mortos. A Mangueira não vota. A Mangueira confirma. E confirmou Oyá.

Sidnei França vai ter vento nas mãos, e vento não se esculpe. Lequinho, Fionda e companhia deram a ele um samba que já nasce cantado, e isso, no carnaval, é meio caminho andado. Guanayra Firmino preside uma escola que anda há um ano inteiro com a cabeça no centenário, e não há cartão de visitas melhor pra encaminhar os 100 anos do que um desfile em que a rua toda saiba a letra.

Não sei se a Mangueira vai ser campeã em 2027. Ninguém sabe. O que sei é que a escola fez a coisa mais mangueirense que existe: se juntou. Se juntou em torno de um enredo, se juntou em torno de um samba, se juntou em torno de uma deusa que sopra. E quando essa gente se junta, o Rio de Janeiro treme, o morro desce, a poeira sobe.

Fala, Mangueira! Que a cidade está escutando. E Iansã também.