Marcelo Bielsa usa a Copa do Mundo na América do Norte como palco para a sua luta particular contra a gentrificação do futebol.

A foto correu o mundo antes mesmo de alguém perguntar o que ela significava.

Era o Media Day da seleção do Uruguai, o dia em que jogadores e comissão técnica são enfileirados diante das câmeras para produzir as imagens oficiais da Copa do Mundo de 2026. Todo mundo conhece o protocolo: olhar para a lente, compor o rosto, entregar a pose que rende bem nas redes. O técnico do Uruguai, Marcelo Bielsa, não fez nada disso. Estava de óculos escorregando no nariz, as mãos enfiadas nos bolsos do agasalho, a cabeça baixa, a cabeça em outro lugar. Um fotógrafo apertou o botão. E aquele senhor distraído, que não estava nem aí para a foto, virou a foto.

Perguntaram a ele, depois do jogo, por que estava de cabeça baixa. Bielsa se recusou a explicar. Disse que não era modelo, que não tinha feito nada de errado, e devolveu a pergunta pelo avesso: por acaso ele precisava explicar também por que não olhava para o jornalista que falava com ele naquele instante? Repare na manobra. Ele não nega que tenha sido protesto, mas também não admite. O que recusa é a ideia de que a pose seja obrigatória, como se quem devesse uma explicação ao mundo não fosse o homem que olhou para o chão, e sim o mundo que exige que todos olhem para a câmera.


E talvez seja esse o ponto. Num mundo inteiro treinado para a pose — o queixo na medida certa, o ângulo estudado, o sorriso já pensando no compartilhamento —, um homem de setenta anos que se recusa a encarar a lente soa mais subversivo do que qualquer manifesto. A escritora Mariana Enriquez, que uma vez o descreveu como um professor meio transtornado e adorável, cravou no Instagram: melhor foto da Copa até agora.

Faz sentido que tenha sido ele.

Bielsa é apelidado de El Loco há tanto tempo que a alcunha quase virou sobrenome. O Louco. E aqui eu não resisto à comparação óbvia: tem alguma coisa de Dom Quixote nesse argentino que dirige o Uruguai. Um cavaleiro magro, de óculos e agasalho, que insiste em enxergar gigantes onde o resto do mundo já se acostumou a ver moinhos de vento.

Só que tem um detalhe. No caso dele, os gigantes são de verdade.

O que Bielsa enfrenta não é fantasia. É a transformação do futebol num produto. Esta Copa de 2026 é a primeira com jogos partidos em quatro tempos, com pausas para hidratação encaixadas onde antes havia jogo, com os ingressos mais caros da história. Chamam isso de modernização. Bielsa chama pelo nome: a americanização do futebol, o começo de outro esporte, um pós-futebol em que o torcedor importa menos que o patrocinador. E é contra isso que ele se atira — com a teimosia de quem já perdeu a guerra e mesmo assim não larga o escudo.

A briga dele tem uma tese, e a tese é bonita. Bielsa diz que o futebol é propriedade popular. Que os mais pobres têm pouquíssimo acesso à felicidade, porque felicidade, no fundo, também se compra, e eles não têm com o quê. O futebol era uma das raras coisas que ainda seguravam na horizontal, de igual para igual com qualquer um. E é justamente essa coisa que está sendo tirada deles.

Em 2017, a CBF convidou Bielsa para uma palestra no Rio, ao lado de Tite e de Capello, sobre esquemas táticos. No meio de uma explicação técnica sobre como reduzir espaços em campo, ele desviou para o que de fato lhe interessava. Disse que ganhar virou a única obrigação e que o jeito de ganhar deixou de importar. Que deveria existir punição para quem ignora a beleza do jogo só para chegar ao resultado, do mesmo modo que existe punição para o doping. Que, se a gente só entrega resultado, e não entrega o futebol como experiência estética, a gente piora as pessoas como seres humanos. Estava no Rio, diante de brasileiros, dizendo que o jogo pertence aos pobres. Não é o tipo de coisa que se costuma ouvir numa aula de tática.

O comovente é que essa figura quase profética, de perto, é um sujeito de uma humanidade que desarma.

Conta-se que, na Inglaterra, um garoto que tirou uma foto com ele mandou a imagem pelo correio pedindo um autógrafo. Bielsa assinou. Mas, na devolução, pediu que o menino assinasse uma cópia e mandasse de volta — porque ele queria guardar aquilo de lembrança. Pare um segundo para pensar no tamanho disso. Um técnico que dirigiu três Copas pedindo o autógrafo de uma criança.

Na festa do centenário do Leeds United, ele apareceu atrasado e de agasalho no jantar de gala, porque tinha vindo direto do treino.

Em 2018, ele doou dois milhões e meio de dólares do próprio bolso para construir um alojamento no Newell’s, o clube da vida dele. Na época, explicou mais ou menos assim: a gente é criado para se destacar, para juntar dinheiro, para ser rico e famoso feito gente de revista. Mas o que vale mesmo a pena são as emoções que a gente lembra e os afetos que a gente constrói. Vindo de qualquer outro, soaria a frase de motivação barata. Vindo de quem acabara de dar dois milhões e meio, vira outra coisa.

Dizem que ele é ingênuo. Que não dá para frear o progresso, que o dinheiro sempre vence, que futebol virou indústria e pronto, melhor se acostumar. Pode ser que tenham razão. Dom Quixote também perdeu todas as batalhas que travou. Mas é curioso que, séculos depois, ninguém lembre o nome de um único dos homens sensatos que riram dele.

Naquela foto, Bielsa está de cabeça baixa. O mundo viu um homem distraído. Eu prefiro imaginar que ele estava olhando para alguma coisa — alguma coisa que o resto de nós, ocupado demais em posar para a câmera, faz tempo que deixou de ver.