Baresi jogou no time profissional do Milan entre 1977 e 1997: 20 anos de inteira dedicação a um só clube - O Milan
Franco Baresi jogou no time profissional do Milan entre 1977 e 1997: 20 anos de inteira dedicação a um só clube – o Milan

Franco Baresi morreu hoje, 31 de julho de 2026, aos 66 anos. E eu vou me permitir uma frase dessas que a gente quase nunca diz, porque soa a exagero de torcedor: foi o maior zagueiro que já vi jogar.

Não o maior de que falam – falam de tantos que nunca vi. Falo do que vi com meus olhos. E o que vi tinha um metro e setenta e seis.

Um metro e setenta e seis. Repito o número porque soa quase como uma piada. Zagueiro é para ser uma torre, para ganhar tudo no alto, para meter medo. A Inter olhou aquele menino de Travagliato, mediu de cima a baixo e achou pequeno demais. Levou o irmão, o Giuseppe, mais alto, mais óbvio. Franco foi para o Milan. Ficou por lá vinte anos initerruptos. Saiu com a camisa 6 aposentada para sempre, pendurada no alto de San Siro, para que ninguém mais ousasse vesti-la.

O que fazia dele o que era não estava nas pernas. Estava num relógio que ele carregava por dentro. Baresi não corria atrás da jogada – já estava lá quando a jogada chegava. Antecipava como quem tinha lido o roteiro antes do atacante. Não me lembro de um bloqueio errado. Não me lembro de uma dividida perdida, de uma antecipação que falhasse. Havia nele um tempo de bola que eu nunca mais encontrei em ninguém: aquele instante exato, nem cedo nem tarde, em que o pé toca a bola como se os dois, ele e a bola, tivessem combinado o encontro na véspera.

E fazia tudo isso sem despentear. Tronco ereto, cabeça erguida, atravessando o campo como quem plana no ar. Enquanto o resto dos jogadores suava, escorregava e implorava, ele caminhava. Quando tomava a bola, não a chutava para longe com alívio, carregava a pelota. Subia com ela colada no pé. No meio-campo virava armador, abria o jogo com um passe longo desenhado a régua. Puxava o time inteiro para a frente só de sair jogando. Para ele, defender era apenas o primeiro gesto do ataque.


Vinte anos, um clube só. Ficou quando o Milan caiu para a Série B – não uma, duas vezes – e voltou carregando o time nas costas magras. Lealdade, hoje, virou palavra de propaganda. Nele era só o jeito de estar no mundo.

E aí tem 1994. Rompeu o menisco no segundo jogo da Copa. Fim de papo, decretaram os médicos: três, quatro meses de fora. Ele voltou em vinte e cinco dias. Vinte e cinco. Jogou a final contra o Brasil de Romário e Bebeto e não deixou os dois respirarem – cento e vinte minutos de aula, as pernas travando de cãibra, o rosto de quem sofria. Foi para os pênaltis. Bateu o primeiro. Mandou por cima.

O Brasil levou a taça. E o mundo, que é injusto, quase quis guardar dele aquela bola perdida no céu de Pasadena. Perguntaram, depois, se ele não preferia que outro tivesse cobrado. Disse que não, sem drama: responsabilidade é assim, faz parte do ofício. Nenhum arrependimento. Só a serenidade de quem sabia com exatidão o tamanho do que tinha feito naquele dia – e do que tinha deixado escapar.

Baresi jogou pela última vez há 29 anos. Quase três décadas. E ninguém chegou perto. A posição que ele ocupava, a de líbero, aquele zagueiro que era também o cérebro e o compasso do time, foi murchando até quase sumir do futebol. Às vezes penso que ela não acabou por acaso. Acabou porque tinha sido feita sob medida para um homem só, e esse homem se aposentou.

Em fevereiro ele ainda apareceu, carregando a tocha olímpica no gramado onde foi rei. Parecia bem. Parecia eterno. Não era. Havia um ano brigava calado com uma doença que quase ninguém soube que ele tinha.

Certos jogadores a gente não substitui. A gente só sente falta. O líbero foi embora e levou a posição junto, como quem guarda uma ferramenta que só a sua própria mão sabia usar. Que fique com ela. Ninguém a mereceu como ele.

Descansa, capitano. O tempo de bola – e da vida – sempre foi teu.