Miguel,

Sei que você está chorando agora. Chora o quanto precisar – é assim que a gente descobre o tamanho do que ama. Hoje é 5 de julho. Guarda essa data. Ela tem mania de voltar. Porque num 5 de julho, muito antes de você nascer, o Brasil também caiu. Foi em 1982, num estádio pequeno em Barcelona chamado Sarriá, que hoje nem existe mais A gente só precisava de um empate contra a Itália. Tinha o Zico, o Sócrates, o Falcão, o Júnior, o Éder. Um time que jogava bonito de doer, o Telê Santana no comando. E aí apareceu um italiano magrinho e desacreditado, o Paolo Rossi, que não tinha feito gol a Copa inteira, e fez três. Perdemos por 3 a 2. Eu era menino, como você. Chorei aos oito. Chorei de novo aos doze. E naquele dia de 82 eu chorei com uma certeza que só criança tem coragem de sentir por inteiro: a de que eu nunca, em toda a minha vida, ia ver o Brasil campeão do mundo.

Deixa eu te contar uma coisa sobre aquele dia. Um fotógrafo flagrou um garoto chorando na arquibancada, mais ou menos da sua idade. A foto foi parar na capa do jornal no dia seguinte – só o menino, as lágrimas e a data, sem mais nada escrito. Ganhou o maior prêmio de jornalismo do país. É isso, Miguel: até as lágrimas de um menino por causa dessa seleção já foram premiadas. Você está numa tradição antiga e honrada. Não é fraqueza. É pertencimento. Mas volto à minha certeza de criança, porque é dela que eu quero te falar. Eu tinha razão de sofrer, e estava errado no resto. Levou tempo. Levou muito mais do que um menino aguenta imaginar. Mas em 1994, já homem feito, trabalhando, longe da infância, eu vi. O Brasil campeão do mundo nos Estados Unidos. E te juro que chorei outra vez – só que agora do avesso. A mesma água correndo pelo rosto, o sentido trocado. Foram vinte e quatro anos entre a última taça que eu não tinha visto e aquela que eu finalmente vi.

Agora faz uma conta comigo. O Brasil foi campeão em 2002 – você nem tinha nascido. De lá pra cá, até hoje, são vinte e quatro anos. O mesmo número. Você está vivendo, quase dia por dia, a espera que eu vivi. Você, aos 15, representa o que eu fui um dia, mas com outro cabelo, muito mais bonito e com um celular na mão.E é justamente por isso que eu preciso te dizer uma coisa, com a autoridade de quem já esteve exatamente aí onde você está: a sua certeza de que não vai acontecer é mentira. Bonita, convincente, chorada com toda a razão do mundo – e mentira.

Eu tive a mesma, palavra por palavra. E ela se desmanchou numa tarde de julho de 1994.Vai acontecer de novo, Miguel. Não sei quando. Talvez em 2030, quando o jejum já vai estar com vinte e oito anos e o país inteiro achando que carrega um azar de família. Talvez depois. Não tenho data pra te dar, e desconfio de quem tenha. Mas que vai, vai. Time nenhum fica pra sempre longe daquilo que o povo dele tanto quer. Naquele julho de 82, um poeta velho escreveu uma crônica três dias depois da derrota, no Jornal do Brasil. Chamava “Perder, Ganhar, Viver”. O nome dele era Carlos Drummond de Andrade, e ele disse, com uma delicadeza que eu não alcanço, o que eu queria que ficasse com você. Então deixo com as palavras dele, não com as minhas:

Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano está na segunda metade?

Ele disse melhor do que eu jamais diria.Chora hoje, Miguel. Chora bem chorado, sem pressa, sem vergonha. Amanhã o sol nasce igual, o café fica pronto, e a bola – que é teimosa – voltará a rolar em algum canto do mundo esperando você de novo. E quando acontecer, um dia desses, quando o Brasil for campeão outra vez e você estiver chorando do avesso como eu chorei, faz uma coisa por mim: lembra desse 5 de julho, dessa carta, e desse velho amigo aqui que te avisou. E me manda uma mensagem. Eu vou querer chorar junto. Com todo o carinho do mundo, e com uma esperança que já atravessou uma vida inteira. Beijos!

Fred