Em êxtase, Becacecce escala as arquibancadas do Metlife Stadium para abraçar seus familares: amor em família

Sebastián,

O futebol nos foi roubando, aos poucos.

Primeiro levou os preços. Depois levou os estádios, que viraram arenas. Depois levou os jogadores, que viraram marcas. E quando a gente menos percebeu, levou também as palavras — porque até as palavras depois de um jogo viraram produto, assessoradas, medidas, entregues mornas e seguras para não ofender patrocinador nenhum e o ego de alguns.

Eu já não esperava mais nada. De ninguém.

E então você falou.

Um argentino de cabelo comprido, com cara de quem preferia estar num show de rock, sentou diante dos microfones depois de uma das vitórias mais improváveis desta Copa do Mundo — e abriu a boca para dizer coisas que o futebol esqueceu que existiam. Amor. Povo. Alegria. Fé. Dívida com o trabalhador que te recebeu num país que não era o seu e te ensinou o que realmente estava em jogo.

Fui pego de surpresa. E de repente me lembrei por que ainda me importo com esse esporte.


Você é argentino. E isso importa.

A Argentina tem muita coisa discutível. Mas tem algo que ninguém tira: a relação que aquele povo tem com o futebol ainda é carnal, ainda é primitiva, ainda tem cheiro de potreiro e tarde de domingo. O futebol argentino ainda sangra. Ainda chora de verdade. Ainda acredita, com uma seriedade às vezes cômica e às vezes sublime, que aquilo que acontece dentro de um campo tem peso real na vida das pessoas. Você cresceu nesse ambiente. Respirou esse ar. E quando foi trabalhar no Equador, você não deixou isso para trás. Talvez tenha levado mais do que qualquer outro teria levado.


Você falou do amor.

Não como figura de linguagem. Não como frase ensaiada para a câmera. Falou do amor como a única explicação verdadeira para o que os seus jogadores fizeram dentro de campo contra a Alemanha. Numa era em que o dinheiro entrou em cada fresta do futebol — nas negociações, nos empresários, nos sorrisos de patrocinador — , você teve a coragem de dizer aquela palavra. Amor. A mais antiga do futebol. A que a indústria tem mais vergonha de pronunciar.

E falou de fé.

A um jornalista que duvidou, você disse: você foi um homem de pouca fé. Eu ri. E logo depois fiquei pensando.

O futebol moderno é ciência. É dado, é pressão, é estrutura de jogo, são horas de vídeo e planilhas de desempenho. Tudo isso é real e necessário. Mas o futebol também é aquela coisa que acontece quando a bola bate na trave e entra, quando um jogador que não deveria estar em campo resolve o jogo, quando um povo inteiro prende a respiração ao mesmo tempo. Isso não está em nenhuma planilha. Isso é metafísica. E você, Sebastián, parece ser um dos poucos profissionais que ainda respeita as duas coisas: a ciência e o mistério.


Você também falou do Equador. O país. E aí eu precisei parar um segundo.

Falou das regiões, dos nomes, dos lugares. Falou que quando chegou àquele país fez questão de entender o que o povo sentia. Não o mercado. Não o potencial econômico. Mas o povo de verdade. O trabalhador que acorda cedo, que carrega o peso da semana nas costas, que encontra no futebol uma das poucas alegrias francas que a vida oferece. Você entendeu isso. E entendendo isso, se sentiu em dívida. Foi essa dívida que você tentou pagar em campo.

O chofer do ônibus que incentivou o grupo depois do empate com Curação — você não esqueceu de mencionar ele. Esse detalhe, que pode passar despercebido para muitos, me diz tudo sobre que tipo de homem você é.

Sebastian abraça Plata, autor do gol que deu ao Equador a vitória mais importante da sua História
Sebastian abraça Plata, autor do gol que deu ao Equador a vitória mais importante da sua História

E sobre sua família, atacada nas redes durante a semana ruim. Você disse que entendia. Que era a paixão do povo. Que paixão não precisa de lógica para existir, só precisa de amor — e o amor às vezes machuca quem está do lado. Grandeza é isso: não fingir que não dói, mas entender de onde vem a dor.

No fim do jogo você subiu na arquibancada. Abraçou a sua gente. E eu vi — de longe — aquele rosto. Iluminado. Radiante. Com o sorriso aberto de quem não estava pensando em próximo jogo, em coletiva, em estratégia. Um homem tomado pelo êxtase puro de estar vivo e ter vivido aquilo. Um garotão. Um cara que ainda se espanta. Que ainda não aprendeu a esconder a alegria atrás de uma máscara profissional. Que ainda não virou produto.

Esse rosto… Esse rosto me deu esperança.


Eu assisti à minha primeira Copa do Mundo ainda criança, em 1982, numa Espanha que nos deu Zico, Sócrates, Falcão — e a lição cruel de que o futebol bonito nem sempre vence. Aprendi desde cedo que esse esporte pode ser lindo e devastador ao mesmo tempo. Mas aprendi também que quando ele é genuíno, quando as pessoas dentro dele ainda carregam aquela chama original, ele tem um poder que nenhuma outra coisa no mundo tem.

Você ainda carrega essa chama. Ela apareceu naquela coletiva. E iluminou, por alguns minutos, um esporte que anda precisando muito de luz.


Então… obrigado, Sebastián.

Obrigado em nome dos que ainda acreditam que o futebol foi inventado por pessoas que não tinham nada além de uma bola, um campo e uma vontade absurda de jogar. Obrigado por não ter virado só produto. Por não ter deixado a máquina te engolir inteiro.

E um pedido: não perca isso. Não importa o que venha — classificação, eliminação, título… Não troque essa visão de mundo por nada que o futebol mercantilizado tiver para te oferecer. O que você mostrou naquela tarde ensolarada de New Jersey não tem preço. Porque é exatamente o que esse esporte está esquecendo de ser.

Boa sorte no resto da Copa.

Tenha fé.

Fred Soares. Rio de Janeiro, junho de 2026