*TEXTO ESCRITO EM 30 DE ABRIL DE 2019
Beth Carvalho se foi nesta terça-feira, 30 de abril. As emissoras de TV e rádio, os jornais e a mídia em geral enaltecem a sua enorme importância como uma das principais cantoras da MPB dos últimos 50 anos. A observação é justa, mas prefiro observar a relevância de Beth no cenário musical do país sob um outro prisma. Mais do que intérprete, ela foi uma verdadeira militante do samba. Tomou o gênero pelas mãos tal qual fosse uma bandeira e nos deixa um legado que supera, de longe, os discos e os sucessos que hoje entram para a imortalidade.
A artista já bebia na fonte do samba desde os anos 60, quando deu seus primeiros passos com o microfone na mão. Foi no começo dos 70 que ela ganhou notoriedade depois de se destacar em dois festivais de música, em que fez de “Caminhada” e “Andança” sucessos cantados até hoje. Canções românticas, mas que lhe serviram como trampolim para que começasse a se realizar como sambista. A fama conquistada na TV permitiu que ela chegasse às rodas de samba não mais apenas como uma admiradora. Passara a se tornar uma generosa caça-talentos. Seu ouvido apurado e olhar certeiro, ela trouxe para perto de si jovens até então desconhecidos e passou a gravar seu repertório. Entres eles, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Luiz Carlos da Vila, Almir Guineto e Arlindo Cruz. O reconhecimento veio numa alcunha, da qual ela sempre se orgulhou: madrinha.

A busca por uma jovem guarda do samba não tirou a sua atenção para as raízes do gênero fincadas no chão do Rio de Janeiro, mas que ainda careciam de um estopim para que passassem a ser admiradas Brasil afora. Beth Carvalho pegou na mão do genial Nelson Cavaquinho, gravou a nata de sua grandiosa obra e fez do compositor mangueirense uma das mais eloquentes referências do samba carioca do ponto de vista histórico. Algo parecido fez também com outro ilustre mestre verde e rosa: Cartola. A aproximação produziu duas das gravações mais emocionantes da discografia brasileira: “As Rosas Não Falam” e “O Mundo é um Moinho”.
Os maravilhosos anos 70 também permitiram a Beth Carvalho mergulhar na obra de outros bambas, como Wilson Moreira, Gracia do Salgueiro, Nei Lopes, Martinho da Vila. A imersão neste incrível caldo cultural que é o samba carioca de todas as épocas levou à produção de um histórico álbum, produzido por Rildo Hora: “De pé no chão”, que consagrou canções como “Vou festejar” (Jorge Aragão, Dida e Neoci Dias), “Goiabada cascão” (Wilson Moreira e Nei Lopes) e “Agoniza mas não morre” (Nelson Sargento). Quem quiser saber mais pode assistir ao episódio de O Som do Vinil, com Charles Gavin, que trata deste magnífico disco.Em resumo, dar vez e voz a toda essa memória viva do mais importante gênero musical carioca e trazer à luz uma garotada cujo talento se limitava ao subúrbio é, na minha opinião, o grande legado da querida Beth Carvalho, uma militante do samba, uma trabalhadora da música, que se despede de todos nós, coincidentemente num 1° de maio.

PS — A vida de Beth Carvalho transcendeu a arte. Seu sucesso como cantora lhe deu o passaporte para que se engajasse politicamente e a fizesse se alinhar ao povo nas grandes manifestações políticas dos últimos 40 anos. Foi Brizolista ferrenha. Nunca escondeu de que lado estava da história. Isso, sem contar a sua confessada paixão pelo Botafogo. Recomendo a quem deseje viajar mais pela vida de Beth Carvalho ler esta bela entrevista concedida por ela aos amigos Luiz Antônio Simas e Eduardo Goldenberg em 2010.
